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Mercado literário na pandemia: desafios e dilemas


A venda de livros no Brasil cresceu 7,6% entre 2019 e 2020. Mesmo assim, o mercado literário, na pandemia, enfrenta certos obstáculos.

Por Leandro Oliveira, Natália Curvelo e Priscila Santana

“O livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive”. Assim, definiu o filósofo, orador e missionário português, Pe. Antônio Vieira (1608-1687).

Os livros são a porta de abertura para o exercício de um pensamento crítico para a sociedade, e podem fomentar a cultura e o conhecimento. Na época em que Padre Antônio Vieira viveu, era quase impossível pensar que um dia existiriam bibliotecas mundiais inteiras a apenas um clique, que fomentariam um mercado literário, em uma pandemia. 

Segundo um levantamento anual consultado em Maio deste ano feito pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros com a empresa Nielsen Bookscan Brasil que verifica o fechamento total das vendas em livrarias, centros varejistas e e-commerces, notou-se um crescimento de 7,6% no volume de vendas do mercado literário no ano passado, tendo em vista o número de vendas total de 2019.

A pesquisa aponta que os gêneros mais vendidos foram os de Não Ficção Especialista, com 28,77%, e Não Ficção Trade, com participação de 26,40%. Logo atrás estão os livros infanto-juvenis e educacionais. 

A pandemia transformou o mercado literário, levando em conta que feiras e eventos de divulgação do setor têm sido online desde o início da crise sanitária, como aconteceu com a tradicional Festa Literária Internacional de Paraty, aFLIP. De um lado, escritores e diretores de editoras se veem imersos em publicações e lançamentos digitais, que embora consigam atingir um público maior virtualmente, se deparam com uma melhora ainda não muito significativa nas vendas de livros físicos quando comparada a anos anteriores. 

Em contrapartida, observamos leitores que cada vez mais migram para a leitura de livros digitais, em plataformas como o Kindle e E-books, por causa do baixo custo e da praticidade ainda maior gerada pelos “novos tempos”. 

Pesquisas apontam que o valor médio do livro físico diminuiu. Segundo o Portal G1, a média de preço era de R$ 45,56 em 2020, contra R$ 42,29 em 2021. O poder de compra do brasileiro médio diminuiu em virtude da atual crise econômica acentuada pela pandemia, e consequentemente a compra de livros físicos deixou de ser prioridade para a maioria dos leitores assíduos do país. Abaixo uma explicação gráfica sobre os dados que precificam os livros físicos no Brasil feito pelo G1.

O que compõe o preço médio de um livro no Brasil

O que compõe o preço médio de um livro no Brasil. – Reprodução: Foto Arte/ G1

Leitura como fuga do mundo real

O mercado literário, na pandemia, tem sido um caminho de fuga para muitos. Entre as pessoas que viram nos livros um caminho para conhecer novas histórias está Bianca Camara. Com um repertório que vai de romances a thrillers-psicológicos, a redatora afirma utilizar a leitura como um escapismo. “Ano passado foi muito pesado. (…) Ler foi uma forma que eu encontrei de, literalmente, me alienar, sabe? De fugir da realidade, de focar no mundinho fictício”, afirma.   

O hábito de Bianca em buscar uma alternativa ao mundo real fez com que ela atingisse um número significativo de leituras em 2020. Foram 87 obras lidas, entre opções físicas e digitais. Em relação à plataforma escolhida para ler os exemplares, Bianca optou pelo Kindle, um dispositivo semelhante ao tablet desenvolvido pela Amazon com o intuito de armazenar E-books e, ao mesmo tempo, facilitar a leitura. Um contraponto aos grandes volumes de páginas das obras físicas. 

A escolha da leitora deu-se pelo valor atual dos livros físicos, que mesmo em uma recente queda ainda pesam em seu orçamento, e pelo desejo de voltar a ler no mesmo nível que anos antes da pandemia. “Eu estou em casa o tempo todo, vou aumentar para três livros”, pensou Bianca sobre a quantidade de livros que pretendia ler durante o mês.

No entanto, ela encarou obras com valores ainda altos para as suas finanças e, pesquisando, descobriu o Kindle como alternativa. Mesmo assim, a leitora garante que, se gosta muito do livro disponível no aparelho, compra o físico para ter na coleção pessoal. 

Os melhores momentos da nossa conversa com Bianca Camara estão disponíveis em nosso canal no YouTube. Assista agora!

Livros físicos ou e-books?

No mercado literário na pandemia e nos últimos anos, observamos diferentes formatos disponíveis para a compra: a obra literária física, a opção digital e o áudio com a transcrição das histórias contadas – o audio-book. Tal variedade proporciona uma certa democratização em relação à possibilidade dos leitores conhecerem as obras no formato que preferirem. 

Sobre a disponibilização dos livros em formato digital, Daniel Pinsky, diretor-geral da editora Labrador, afirma que a produção editorial da empresa preservou a produção física e digital dos livros, com lançamento simultâneo. “Não nos limitamos em vendê-los apenas como e-books. A gente entra em plataformas digitais, como a BV, a biblioteca virtual da Pearson”, reforça Daniel sobre a disponibilidade das obras em faculdades e também em outras iniciativas, como os audio-books.

O jornalista e escritor André Cáceres vê que a opção digital tende a complementar a mídia impressa, e reforça que há um “certo fetiche” do público pelos livros físicos. “São formas diferentes de veicular a literatura e que fazem sentido”, afirma André, que ainda vê o livro digital como algo que pode parecer muito caro, por conta da condensação de custos, por acabar absorvendo outros custos pagos pelo livro impresso.  

Bruna Meneguetti, jornalista e escritora, acredita em um “melhor dos mundos”, onde os livros pudessem ser disponibilizados em formato físico, com a opção digital e o audio-book incluídos na mesma compra. Para ela, isso traria mais comodidade e praticidade para o leitor no cotidiano. 

Como os escritores observam o mercado literário na pandemia?

 

Inspiração

Para André Cáceres, escritor independente e jornalista crítico-literário do jornal Estado de São Paulo, a pandemia trouxe um novo modo de se produzir ficção literária, onde a vida imita a arte. Segundo André, a grande mudança para ele tem sido adequar-se à rotina de permanecer em casa e não ter outros ambientes para frequentar e servirem de inspiração ao seu ofício como escritor. 

“Os estímulos sensoriais, visuais, olfativos (…) coisas que você só acaba percebendo e tendo contato no seu dia-a-dia, e que dão ideias, coisas até que você não pensaria sozinho dentro de casa. (…) Você vai pra rua e acaba encontrando algo curioso”, conta André. 

As alternativas criadas por André para burlar todos esses entraves, despertar percepções e facilitar o seu processo de criação, foram resignar-se ao seu ambiente e dedicar mais tempo à leitura, essa disponibilidade em ler mais títulos consequentemente o serviram como inspiração. “Acho que consegui por causa disso manter uma certa produtividade durante esse período de quarentena”,  comenta André. 

As influências do cotidiano na literatura são inúmeras e versam na sua maioria  sobre as relações humanas, a política, ou até o próprio cotidiano. E para André não é diferente, o escritor afirma ter sido sim influenciado pelos acontecimentos relacionados a pandemia, mas não focou em relatar especificamente esse assunto em seus textos. 

Gêneros escolhidos

O gênero literário mais abordado em suas obras é essencialmente a ficção científica, “trabalho muito com a ficção, o que é muito engraçado porque agora parece que o mundo lá fora é uma ficção científica. E é muito difícil não se inspirar pelo que acontece ao redor.” 

Entre as produções literárias do período estão dois contos produzidos para uma coletânea de um outro autor. “Foi um dos momentos que eu me inspirei nesse período pra escrever”, recorda André. 

Motivou-se também a escrever sobre o isolamento em si, não necessariamente o sanitário em que vivemos, onde o autor buscou problematizar como é viver isolado e que tipos de sensações isso pode causar a quem vive imerso em si mesmo. 

Gosto muito de como a fantasia, a ficção científica e o realismo mágico sempre estão falando de outra coisa, quando na verdade estão falando do que a gente passa. Quando falamos de uma realidade muito diferente e alternativa, a gente está falando da nossa realidade. (…) Me inspirei bastante no que a gente está vivendo, mas para construir outras coisas que deem olhares diferentes para o nosso mundo”, afirma André. 

O escritor relata que a ficção científica no mercado literário brasileiro vem recebendo nos últimos anos uma atenção especial dos Centros acadêmicos de pesquisas em Literatura, tem sido mais publicada pelas editoras e consequentemente tem instigado os leitores brasileiros a buscarem cada vez mais a ficção científica literária nacional. O gênero impulsiona, como definiu André, “um olhar para o Brasil do futuro”

“(…) O Brasil também produz muita ficção científica, coisas que não só são boas, mas que conversam, dialogam com a nossa realidade. De uma forma que os estrangeiros não tem como fazer. O próprio Emílio Sales Gomes dizia que o pior filme brasileiro fala mais sobre a gente, do que o melhor filme estrangeiro. Então na literatura isso se repete um pouco também”, revela André. 

André ainda traçou um panorama geral sobre diversos assuntos ligados ao tema, e como o distanciamento social e o isolamento impactaram o mercado literário na pandemia. 

Os temas abordados pelo escritor foram: Perfil do leitor brasileiro, Produtividade literária na pandemia, Lançamentos de livros e adaptação do mercado editorial ao universo digital, Experiência de produzir e lançar um livro durante a pandemia, Taxação de livros e a consequente redução do número de leitores brasileiros, O impresso e o digital, e a A crise no mercado editorial

Assista a entrevista com André Cáceres em nosso canal no YouTube e confira nosso bate-papo sobre o mercado literário na pandemia! 

 

Desafios e oportunidades

Para a escritora e jornalista independente Bruna Meneguetti, colaboradora do Caderno Aliás do Estado de São Paulo, a pandemia também trouxe desafios, mas, em contrapartida boas oportunidades. Entre elas, a atuação de Bruna como dramaturga de uma peça infanto-juvenil que estreou no fim de maio, um espetáculo contemplado pela Lei Aldir Blanc, que conta sobre o dilema de uma garota: o que serei quando crescer? Baseado nas obras de Michael Ende: “História sem fim”, Neil Gaiman: “Coraline”, e Lewis Carroll: “Alice no país das maravilhas”. 

Sobre as adaptações de obras literárias para outras mídias como cinema e teatro como uma forma de atrair o público para o mercado editorial, Bruna afirma que “as formas de arte deveriam conversar muito mais, porque sempre atrai.” 

A escritora se dedica em escrever sobre fatos históricos, e afirma que se inspira em narrar partes da história do nosso país ainda desconhecidas pela maior parte da população. Mas, a ficção científica a instiga e a impulsiona também. 

Em 2019, Bruna foi contemplada por um edital da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, ao inscrever seu romance histórico O Último Tiro da Guanabara (Reformatório, 2019) para o edital daquele ano, e Bruna conta que se surpreendeu com o resultado. “Foi muito gratificante, mas lembro que falei: como assim eu passei?!” , recorda Bruna. 

Sobre o aumento de produções literárias durante a pandemia, Bruna acredita que “os escritores de modo geral (…) alguns claro estão escrevendo mais (…).  Tem outras pessoas (se referindo aos escritores) que (…) estão com tempo livre, porém estão um pouco deprimidas com a situação do Brasil. Mas muita gente conseguiu e até falou do tema da pandemia. Até em uns textos que fiz coloquei a pandemia de certo modo lá.”

Um ano de originais

A Editora Labrador surgiu justamente com o intuito de suprir a necessidade que Daniel Pinsky sentia ao ver o mercado literário brasileiro. A empresa realiza auto publicações de qualidade, que, resumidamente, é uma editora em que o autor paga para ter sua obra publicada.

Especificamente, tomando como base a Labrador para mapear o cenário do mercado literário, na pandemia de COVID-19, Abril e Maio de 2020 foram os meses que mais sofreram impactos, havendo uma diminuição de captação das obras, muito também devido ao custo que se tem para financiar o processo editorial na empresa. 

Logo, quando há uma crise, as incertezas da economia levam as pessoas, naturalmente, a se retraírem, mas a partir de Junho de 2020, o cenário começou a mudar, e a Editora finalizou o ano bem. A captação foi um pouco menor se comparado a 2019, porém tal diferença foi muito pequena. Foram 55 livros publicados em 2020 e, aproximadamente, 57 no ano anterior.

Surpreendentemente, 2021 é o melhor primeiro trimestre da história da Labrador em termos de captação de originais. Para Daniel Pinsky, “os autores voltaram a ter um pouco mais de coragem”, e estão investindo nas suas publicações. A editora conseguiu sobreviver e se manter firme neste período, tanto que eles não tiveram a necessidade de fazer nenhuma demissão de funcionários, justamente “porque a empresa caminha bem”, afirma. 

Em termos de número de publicações, as expectativas são de atingirem a marca de 65 livros publicados neste ano, bem superior até mesmo aos anteriores à pandemia, disse Pinsky. 

Daniel também é membro da Editora Contexto e, da mesma forma como ocorreu na Labrador, não precisou diminuir o quadro de funcionários para dar continuidade aos trabalhos da empresa.  

Posicionamento da empresa

O diretor-geral da Labrador acredita que os bons resultados obtidos são devidos também a forma como a empresa se posicionou e o otimismo mantido por eles. O foco era preservar os postos de trabalho, então alternativas foram encontradas para diminuição dos custos, como negociações com contador, empresas de software e gráficas.

Após isto, partiram para análise do fluxo de caixa e tomaram a atitude de investir. “E esse investimento começou a dar retorno relativamente rápido (…) o que eu não errei, foi intuitivo, que as coisas iam se ajeitar, de alguma maneira elas iam se ajeitar (…)”, revela Daniel. 

“Vai subir um pouco a venda do digital, a gente vai conseguir fazer uma divulgação maior no Google, a gente vai mostrar que [estamos] aqui firme e forte, estamos trabalhando e, desta maneira, no caso da Labrador, a gente voltou a ter uma captação depois de um número de meses que não feriu a empresa. O desafio é sempre o novo”, completa. 

Por fim, quando perguntado qual foi o maior desafio, ele vê que o pequeno empresário precisa “dançar conforme a música”, olhar o que vai acontecer, se preparar e responder. É encarar o novo da melhor forma possível. “O maior desafio é se preparar para algo um pouco diferente, mas não foi nada que nós não passamos relativamente tranquilos”. 

Confira a entrevista sobre o mercado literário na pandemia com Daniel Pinsky na íntegra. 

 

Tributação dos títulos pela Reforma Tributária

O Ministério da Economia, liderado pelo economista Paulo Guedes, encabeça uma Reforma Tributária que afeta diretamente o mercado literário brasileiro. Os planos são aplicar uma alíquota de 12% correspondente à Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS). Este imposto é uma fusão do PIS/Cofins que representa o encerramento dos benefícios fiscais concedidos ao mercado dos livros.

Isso ocorre porque, segundo informou a Receita Federal em abril deste ano, os livros podem perder o privilégio de isenção tributária, pois são consumidos pela parcela mais rica da população, os que recebem mais de dez salários mínimos. Com a arrecadação, a Receita pretende investir em políticas públicas para outros setores. É importante ressaltar que os livros são isentos e respaldados pela lei Pis/Pasep e Cofins desde 2004. 

Entretanto, a 5ª edição do balanço Retratos da Leitura, disponibilizada em setembro de 2020 pelo Itaú Cultural, em parceria com o Instituto Pró-Livro, revela que o perfil Leitor de livros está localizado em maior número na classe C, representando 49%. Em seguida, está a classe B, com 26%. Na terceira posição, estão os níveis D e E, garantindo 21% da parcela de leitores. Por fim, a população classificada como A encontra-se com 4%, representando a menor porcentagem dentro da separação feita pela pesquisa. 

Os escritores observam com certa atenção o imposto sobre os livros que pode atingir o mercado literário na pandemia. Para André Cáceres, “a taxação parte de uma premissa falsa de que só pessoas ricas leem”. O escritor afirma também que as taxas não trarão uma grande arrecadação, além de que ”a tributação diminui as vendas, que prejudica todo o mercado editorial que já está combalido”, completa.  

Segundo Daniel Pinsky, a possível volta do PIS/COFINS sobre o mercado refletirá no aumento do preço, principalmente pelo trabalho efetuado pelos editores. “A maioria dos editores cobram preços bastante razoáveis pelos tamanhos das triagens que a gente tem, e eu acho que isso é um tiro no pé”, explica Daniel, que ainda reforça que as pessoas terão mais dificuldades para comprar livros e alerta para um aumento na pirataria dos títulos.

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