Posta! Humanúmeros Anfitriões revelam como o AirBnB transformou suas rotinas

Anfitriões revelam como o AirBnB transformou suas rotinas


Nos últimos 13 anos, a plataforma de hospedagem possibilitou milhares de encontros entre hóspedes e anfitriões, substituindo a frieza do balcão de hotel por experiências mais autênticas.

 por Sérgio Kendziorek e Tiago Baldasso  

 

A cidade de São Francisco, na Califórnia, é conhecida pelos aluguéis mais caros dos Estados Unidos. Nesse mercado de poucos imóveis e muita demanda, três amigos tiveram uma  ideia inusitada: colocaram um colchão na sala de estar, passando a alugar a acomodação improvisada para hóspedes. Conforme foram recebendo pessoas, os rapazes perceberam que além da grana extra, se divertiam bastante com as novas amizades.

Sem se dar conta, os rapazes de São Francisco plantaram ali a semente do que viria a se tornar alguns anos depois o AirBnB – hoje, o maior site de hospedagem da internet, com cerca de 6 milhões de anúncios em mais de 100 mil destinos. A plataforma foi se estabelecer no Brasil em 2012, quando abriu em São Paulo seu primeiro escritório na América Latina. A manobra buscava antecipar a demanda dos grandes eventos que viriam nos anos seguintes, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Foi nessa época que a paulistana  Priscila Torelli, 49 anos, conheceu o site.

 

O que motiva os anfitriões

Veterana de mochilões exóticos, Priscila já era usuária de hospedagens alternativas como o Couchsurf, se tornando uma das pioneiras do AirBnB no Brasil. Começou alugando o próprio apartamento, no bairro paulistano de Santa Cecília. Curtiu tanto a experiência, que acabou virando uma espécie de embaixadora entre os anfitriões: em pouco tempo, estava administrando também imóveis de amigos e organizando a comunidade de hosts da capital paulista através de grupos de whatsapp.

 

“Sempre preferi experiências mais verdadeiras, ficar na casa de pessoas e ver a realidade do local. Se você bobear, vai ver que um quarto num Ibis aqui de São Paulo ou de Singapura tem até o mesmo quadro na parede.” – Priscila Torelli

 

 

Já no Itaim Bibi, bairro com um dos metros quadrados mais caros de São Paulo, a mineira Lis Vasconcelos, 40 anos, enxergou na plataforma uma oportunidade para custear parte do aluguel, em meio ao marasmo econômico de 2016. Ela passou a alugar o quarto do filho pequeno, aproveitando a demanda por viagens de negócios na região da Avenida Faria Lima. Apesar do estranhamento inicial, Lis, que é corretora de imóveis, conta que já tinha a família já tinha o hábito de hospedar amigos e parentes na cidade natal de Três Pontas, no sul de Minas. 

 

 

Na mesma época, não muito longe dali, a advogada Cris Queiroz, 62 anos, também ensaiava um primeiro contato com o site. Quando um dos filhos foi morar sozinho, Cris se deparou com mais um quarto vazio na casa em que morava, nos Jardins. Resolveu tentar a sorte na plataforma após receber a dica de uma amiga, que queria transformar a casa de Cris em hostel. Ela achou a ideia arrojada demais, preferindo começar alugando pelo AirBnB um pequeno quartinho nos fundos do terreno. Conforme foi se acostumando, acrescentou mais um quarto, e depois que o último filho deixou o ninho, abriu mais duas acomodações. Aos poucos e quase sem querer, a movimentação na casa foi dando o clima de hostel, que agora, em tempos de pandemia, Cris sente tanta falta.

 

 

Causos, histórias e amizades

Na essência uma ferramenta de hospedagem, a plataforma teve também o efeito secundário de possibilitar experiências mais autênticas, conectando anfitriões e hóspedes de diversas culturas e backgrounds. Conversando com hosts do site, isso fica claro: o apego criado pelo vai-e-vem de diferentes pessoas e pela troca de experiências deixou boas lembranças, principalmente agora que as hospedagens foram limitadas pela  pandemia da Covid-19.

O prazer de hospedar através da plataforma parece girar em torno da curiosidade, da vontade de conviver com mundos diferentes sem sair de casa. Mesmo quando a questão financeira já não é tão relevante, o espírito do compartilhamento e as amizades construídas através do AirBnB geram diversas histórias pitorescas: pense em se disfarçar de médico em Belize, conseguir uma oferta de emprego através de um hóspede ou ajudar uma imigrante muçulmana a escapar de uma sociedade machista para seguir a sua vocação.

 

O lado B

Com a popularização do AirBnB, surgiram também alguns problemas: em destinos tradicionais, como Paris ou Barcelona, a ferramenta deu vazão a uma demanda desenfreada por hospedagem, elevando o preço de aluguéis, expulsando inquilinos e provocando conflitos entre o site e as prefeituras. Na Islândia , por exemplo, pacata ilha-país de cerca de 360 mil habitantes, o fluxo de turistas aumentou 5 vezes ao longo da última década. Pouco antes da pandemia, em 2018, o número anual de visitantes já superava em sete vezes a população do país.

Um fenômeno similar ocorreu na pequena cidade de Praia Grande, situada no pé de dois parques nacionais, na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O boom turístico na cidade, facilitado pela plataforma, fez com que moradores locais não encontrassem mais casas para alugar. Na ótica dos proprietários, é mais rentável o aluguel por temporada através do AirBnB. Supermercados, farmácias e restaurantes passaram a ficar lotados, mesmo fora da alta temporada. O bônus do crescimento do turismo trouxe o ônus da intranquilidade, como conta Jodi Selau, 41 anos, que assistiu de perto à transformação da cidade.

O fotógrafo, que em 2018 decidiu passar uma temporada em São Paulo a trabalho, teve a ideia de utilizar o AirBnB para alugar um quarto vazio que deixara na casa dos pais. O sucesso da experiência fez com que ele não tardasse em construir um loft anexo ao quarto original. Orgulhoso de ostentar o título de superhost – distinção feita pelo AirBnB aos melhores anfitriões da plataforma – Jodi credita parte do sucesso da empreitada ao carisma dos pais e da cadelinha Garota, que costuma  roubar as meias dos hóspedes. Para os próximos anos, Jodi tem planos de investir em mais 2 acomodações, além da construção de uma piscina.

 

O lado humano de tudo isso

Apesar de gerar problemas habitacionais em algumas cidades e de necessitar melhor regulamentação, as vantagens trazidas pelo AirBnB são notórias. Além de trazer acomodações melhores e mais baratas,  muitas das histórias vividas entre hóspedes e anfitriões sugerem um crescimento de um senso de comunidade, empatia e confiança mútua entre estranhos.

Enquanto por um lado as pessoas vêm cultivando o individualismo, se escondendo atrás de telas e mundos virtuais, a comunidade do AirBnB mostra que essas mesmas tecnologias podem gerar uma sociedade mais plural, menos egocêntrica, na qual o compartilhamento de espaço e cultura andam juntos.

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