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Da Biblioteca para o Google – Maria Augusta Vieira

Por Melina Mayrink O’Kuinghttons e Vinícius Munhoz

A relação de idosos com a tecnologia digital nunca foi simples. Nascidos em uma época na qual a principal ferramenta de escrita era a máquina de datilografia, nunca pensariam que em poucas décadas bastaria um clique para conectar pessoas de lados opostos do mundo. Segundo pesquisa do TIC Domicílios, apenas 34% das pessoas acima de 60 anos já se conectaram na internet, e em 2017 apenas 21% dos idosos diziam ter usado um computador. 

Entenda mais sobre esse cenário acessando a matéria completa aqui.

 

A primeira vez que você vai fazer dá errado, a segunda também. E depois você não quer mais fazer. É muito erro para dar uma vez certo. Isso é exaustivo, até a gente aprender. E, a uma certa idade, é mais difícil memorizar as coisas, e você não tem a destreza de um jovem que mexe e não perde tudo. A gente tem a percepção de que, se não mexer, o negócio não anda, e se mexe, ele some. É uma situação que parece que não anda, é frustrante.

Maria Augusta Vieira

Da Biblioteca para o Google

A professora Maria Augusta, de 69 anos, enfrenta dificuldades semelhantes às de Geraldino. Quando começou a dar aulas de Literatura Espanhola na Universidade de São Paulo, há 44 anos, não existia internet. “É algo muito recente para mim. Não tinha computador, meu mestrado e doutorado foram datilografados. Para mim, é uma mudança radical. Muitos dos meus colegas usam a tecnologia nas aulas, mas eu não. Minha vida toda é a fala e a interlocução com os alunos. Não uso nem PowerPoint. É um estilo que conservei de dar aula, e para mim e meus alunos funciona bem”.

No começo de 2020, jamais imaginava que aconteceria algo como a pandemia: “Dei aula no dia 12 de março e, de repente, me vi na obrigação de mudar o estilo das aulas. No começo relutei, não queria dar aula, fui adiando para ver se as aulas presenciais voltavam. Foi um trauma para mim. Agora, me acostumei com esse estilo”.

Antes da pandemia, Maria Augusta usava o computador como máquina de escrever. Mas também conta que o que mais gosta é poder fazer buscas na internet de obras que precisa para consulta. Sua relação com a tecnologia é profissional. “Antes, era muito difícil ter acesso à bibliografia. Era caro acessar materiais, porque significava, muitas vezes, ter que viajar”. Hoje em dia, a busca é mais ágil e completa, o que facilita seu trabalho.

No modelo de aula presencial, só usava a internet para acessar listas de alunos e outras atividades burocráticas. Com a pandemia, passou a sentir uma dependência maior do computador: “Por não sairmos de casa, o computador se tornou uma ferramenta do dia a dia. Além disso, a relação com reuniões virtuais mudou muito”. No primeiro semestre de 2020, teve que enfrentar, mas não dava aulas simultâneas.

 

“Arrumei um jeito que eu gravava a aula, que era uma coisa horrorosa, porque era realmente eu falando para a tela. E fazia aulas muito mais breves do que deveriam ser. Eu me sentia ridícula falando assim pro computador. Mas gravei as aulas e uma ex-aluna minha colocava no Moodle, os alunos assistiam e eu tinha contato com eles no Facebook ou no e-mail”.

No segundo semestre, pediu licença prêmio, porque não estava suportando o modelo online. Quase se aposentou, mas resolveu que em 2021 enfrentaria dar aula síncrona. Para isso, recebeu ajuda de colegas de trabalho. “Hoje eu consigo dar aula, embora haja um certo desconforto pelo fato de não ver os alunos”.

A professora destaca que foi muito difícil aprender a usar essas ferramentas: “A primeira vez que você vai fazer dá errado, a segunda também. E depois você não quer mais fazer. É muito erro para dar uma vez certo. Isso é exaustivo, até a gente aprender. E, a uma certa idade, é mais difícil memorizar as coisas, e você não tem a destreza de um jovem que mexe e não perde tudo. A gente tem a percepção de que, se não mexer, o negócio não anda, e se mexe, ele some. É uma situação que parece que não anda, é frustrante”.

Maria Augusta constata que a pessoa mais idosa tem que insistir, ter abertura para aprender as tecnologias, e aí mora a dificuldade: se sujeitar a uma situação nova. “Há uma resistência muito grande a ir na direção do novo. Quem consegue se inteirar dessas coisas fica muito mais aberto para o mundo e suas mudanças. Quem não consegue, acaba perdendo lugar”.

 

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