Posta! Humanúmeros Acesso de idosos à tecnologia cresce para 97% com a pandemia de COVID-19

Acesso de idosos à tecnologia cresce para 97% com a pandemia de COVID-19

Por Melina Mayrink O’Kuinghttons e Vinícius Munhoz

A relação de idosos com tecnologia digital nunca foi simples. Nascidos em uma época na qual a principal ferramenta de escrita era a máquina de datilografia, nunca pensariam que em poucas décadas bastaria um clique para conectar pessoas de lados opostos do mundo. Segundo pesquisa do TIC Domicílios, apenas 34% das pessoas acima de 60 anos já se conectaram na internet, e em 2017 apenas 21% dos idosos diziam ter usado um computador. 

A tecnologia, que já se tornou protagonista na vida das pessoas há muito tempo, ganhou ainda mais espaço durante a pandemia de COVID-19. A internet se tornou uma ferramenta essencial para encurtar as distâncias que o isolamento nos impôs e se tornou sinônimo de relacionamento. A conversa de bar virou reunião de Zoom e as reuniões de trabalho viraram calls.

Essa adaptação foi muito mais simples para aqueles que já tinham familiaridade com essas tecnologias. Mas como foi essa drástica mudança para aqueles 66% dos idosos que não usavam a internet? Ou até mesmo para aqueles que pertenciam aos 34% que já se conectaram na internet, mas que somente utilizavam as ferramentas mais básicas de uma densa e extensa gama de funcionalidades? Durante a pandemia, o número saltou de 66%, em 2017, para 97%, em 2021. Como foi essa rápida inserção dessa parte da população ao mundo digital?

Cada indivíduo dentro dessas estatísticas possui um perfil e uma história diferente. A necessidade não é a mesma para todas as pessoas que têm mais de 60 anos. Por isso, reunimos algumas histórias de idosos com diferentes relações com a tecnologia, com o intuito de compartilhar as necessidades, conquistas e desafios. Além disso, vale refletir de que forma é possível contribuir com tecnologias e conteúdos mais inclusivos para todas as idades. Se a internet se tornou indispensável para socialização na pandemia, como estão aqueles que não têm acesso a ela?

Conversamos com Geraldino Ferreira, Maria Augusta Vieira e Luiz Silveira para entender melhor como a pandemia modificou suas relações com a tecnologia. 

 

Clique nas telas dos computadores para conhecer a história de cada um e sua relação com a tecnologia atualmente.

 

 

  

 

GERALDINO FERREIRA

Psicanalista

A necessidade profissional

 

 

 

MARIA AUGUSTA

Professora

Da biblioteca para o Google


 

 

LUIZ
SILVEIRA

Aposentado

A recuperação da memória

Educação digital x Exclusão social

A jornalista Paula Ribas, fundadora do canal Na Metade do Livro, pesquisadora da área de comunicação e também professora de cursos sobre alfabetização digital para o público da terceira idade, afirma que existe todo um mundo no qual pouca gente teria acesso devido à não educação digital.

Tem gente que tem muita dificuldade, porque é outra lógica de mundo, é outra maneira de entender como as relações funcionam, porque para entrar na cibercultura, precisamos nos dar conta dessa questão da comunicação e dos relacionamentos. A cibercultura te joga num lugar em que a maneira de se relacionar muda. Tem muitas camadas, não é só aprender a entrar no YouTube ou pesquisar no Google. É mais profundo que isso

Paula Ribas

Paula Ribas, mulher branca batendo um claquete de cinema em preto e branco.

  

A comunicação de massa que dizia que conversava com todos não contempla todo mundo. Gera uma exclusão social, já que coisas que para nós, o público mais jovem, são rudimentares, acabam sendo de difícil acesso para a terceira idade. “Dentro desse público, quem entrou conseguiu desfrutar ou viver dentro dessas bolhas criadas durante a pandemia. Quem não fez essa transição ficou bastante ilhado, à margem. Acaba demandando um presencial que, nesse momento, precisa ser evitado”. 

Assim, ela percebe uma exclusão absoluta de quem não entrou nesse mundo online, bem como uma resistência para aderir às funções tecnológicas. Muitas pessoas não querem aceitar a nova realidade, o que acaba causando um impacto na saúde mental dos idosos: “Hoje, a sobrevivência passa pela comunicação de forma primordial, e as pessoas não estavam contando com isso”. 

A pesquisadora afirma que as pessoas não foram treinadas, profissionalmente falando, para a exposição: psicólogos e professores, por exemplo, são treinados para atendimento e aulas presenciais. É o caso de Geraldino , psicanalista, e de Maria Augusta , professora. Ambos se viram forçados a adaptar sua forma de trabalho para o meio online. E, da mesma forma que eles, Paula acredita que isso não mudará: “Hoje, vivemos um mundo híbrido: presencial e online”.

A atual pandemia demonstrou uma necessidade inevitável do uso da tecnologia para a manutenção do trabalho e do convívio interpessoal apesar do distanciamento social. E, nesse sentido, também expôs as dificuldades enfrentadas pelo público da terceira idade que encontra obstáculos no ambiente digital. Mesmo quem já era adepto à tecnologia, como Luiz, acabou se aprofundando ainda mais em seu uso em função da pandemia. Fosse para recuperar memórias antigas ou para conversar com os netos e amigos, Luiz conta que, sem a tecnologia, sua rotina na pandemia teria sido muito mais difícil.

Outros, como Geraldino e Maria Augusta, se tornaram mais adeptos à tecnologia por motivos estritamente profissionais: sentiram uma obrigação em aderir ao meio digital para que pudessem manter seu trabalho em outro formato. 

De qualquer maneira, este cenário demonstra a importância da educação digital para todos os grupos sociais. Para além do entretenimento, o uso da tecnologia tornou-se, para muitas pessoas, sinônimo de sobrevivência nos dias de hoje. Nesse sentido, cabe aos mais jovens, que crescem lado a lado com a tecnologia digital, desenvolver iniciativas de ensino para a terceira-idade, além de produzir conteúdo que vá ao encontro de seus interesses. 

Algumas instituições universitárias já vêm desenvolvendo iniciativas que auxiliam no processo de alfabetização digital de pessoas mais velhas. O GAS Insper, Grupo de Ação Social do INSPER, desenvolveu o projeto chamado Informar, que busca levar a educação digital para pessoas que não tiveram acesso a ela durante sua vida, incluindo pessoas mais velhas. 

Outra possibilidade de ajudar nesse processo é criar conteúdos na internet para esse público, como faz Paula Ribas. Segundo a pesquisadora, o processo de imersão não se limita meramente a ensinar a usar o Google ou YouTube. Ele inclui o ensino de uma nova maneira de se comunicar e relacionar que contemple a terceira idade. 

Se durante a pandemia as relações se deram, em grande parte, através do meio digital, como estavam aqueles que não tinham acesso a ele? 

Comente iniciativas, projetos ou formas de colaborar com a inserção digital da terceira idade aqui embaixo e vamos ajudar aqueles que moldaram o mundo em que vivemos hoje! 

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